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Entrevista com Rafaela Lopes Silva

 

No dia 16 de Abril de 2009, a moradora Terezinha Digenari (Teca) entrevistou a judoca Rafaela Lopes Silva. Segue a entrevista:

 

A judoca Rafaela é moradora da Cidade de Deus e tem 16 anos.

Teca - Qual é o seu nome, sua idade e sua escolaridade?

Rafaela - Rafaela Lopes Silva, tenho 16 anos e estou no 7º ano (6ª série).

 

Teca - Há quanto tempo você mora na Cidade de Deus?

Rafaela – Moro na Cidade de Deus há 16 anos, ou seja, desde que nasci.

 

Teca - Você já sofreu algum tipo de discriminação por ser moradora da CDD?

Rafaela – Nunca sofri discriminação por morar na Cidade de Deus, só entre os colegas que diziam que eu era homem.

 

Teca - Como começou seu interesse pelo judô?

Rafaela – Meu pai vivia falando que eu só ficava na rua, que eu tinha que fazer algum esporte para sair da rua e parar de brigar, foi quando ele me colocou no judô na Associação da Cidade de Deus com o Professor Alan, ai eu fui gostando e ficando, depois meu pai soube do projeto do Professor Bernardes e eu comecei a me dedicar mais e mais e a treinar aqui com ele.

 Rafaela e seus troféus.

 

Teca - Quantos títulos você já conquistou? Quais?

Rafaela – Eu não conto porque dá azar (diz muito tímida), mas pode conseguir com o professor (o professor enumerou os seguintes títulos: campeã carioca, campeã estadual, campeã regional brasileira, campeã brasileira de judô, campeã sul americana, bi campeã pan americana e campeã mundial junior).

 

 

Teca - Como era sua vida antes de entrar para o judô e ser campeã mundial?

Rafaela – Eu vivia na rua o dia todo, faltava aula, não estudava, só vivia soltando pipa, jogando bola de gude, só brincava com meninos, enquanto as meninas ficavam dentro de casa brincando de bonecas, eu ficava o dia todo na rua arrumando brigas com todo mundo, brigava a toa.

 

Teca - Quais eram os problemas e as dificuldades antes de ser conhecida mundialmente como judoca?

Rafaela – Eu tinha muitos problemas com os colegas que viviam me chamando de homem ou moleque macho.

 Rafaela e o judô.

 

Teça - E agora o que mudou na sua vida dentro da comunidade?

Rafaela – Eu agora não tenho tempo nem de parar em casa, estou estudando num ótimo colégio particular, que eu pago com o dinheiro que ganho com o judô (disse isso com muito orgulho) e treino o resto do tempo, fora que eu viajo para os campeonatos.

 

 

Teca - Qual é a diferença, para você, de ter saído de uma comunidade como a CDD? Como teria sido se você não morasse aqui?

Rafaela – É mostrar para as pessoas que quem mora na favela não vira bandido não, porque se você quiser você pode ser alguém e que educação vem de casa.

 

Teca - Você ainda sofre discriminação? Dentro (metida etc.) ou fora da comunidade (favelada etc.)?

Rafaela – A única discriminação é que ficam falando que eu tenho corpo de homem, que eu pareço um homem, mas eu sou bem resolvida e não to nem ai.

 

Teca - Como você vê o contexto do esporte dentro da comunidade?

Rafaela – Muito bom, porque através do esporte você pode resgatar muitas vidas de crianças que como eu vivia na rua e se não fosse o esporte e a minha força de vontade, hoje eu não sei o que seria de mim.

 

Teca - A situação tem melhorado ou piorado com o passar dos anos?

Rafaela – Tem melhorado com certeza.

 

Teca - Você faz algum trabalho comunitário dentro da CDD?

Rafaela – Ainda não pude fazer.

 

Teça - Desde 2008, o Governo Federal vêm implantando uma política de ocupação pacífica das favelas do país, trazendo também programas sociais que visam à recuperação da comunidade. O que você espera que aconteça aqui depois disso? Você acredita que isso possa influenciar de alguma forma o contexto do esporte dentro da CDD?

Rafaela – Que venha para a comunidade vários projetos como este do Geraldo Bernardes que possam resgatar vidas e dar um futuro melhor as crianças e adolescentes da comunidade.  Acredito e já está acontecendo, pois agora o professor iniciou no mês passado um núcleo de Judô na AMUNICOM nos apartamentos. 

 

Teca - Você tem uma filha? O que você sonha pra ela?

Rafaela – Não tenho filhos, mas sim minha irmã que também é campeã mundial.

 

Rafaela e seu professor Geraldo Bernardes

 

 Teca - Geraldo Bernardes é o fundador do projeto Judô Comunitário. O que ele significa pra você?

 Rafaela – Para mim ele é tudo, se não fosse ele a me incentivar, a motivar, a cobrar os meus estudos, a levantar a minha auto-estima, a conseguir bolsa de estudo, patrocínios para eu competir, eu não sei como seria minha caminhada sem ele.

 

 

Teca - Qual é o seu sonho pro futuro?

Rafaela – Entrar para a seleção brasileira e ser campeã olímpica nas próximas Olimpíadas, estou treinando muito para isso acontecer.

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