Entrevista com Giuseppe Badolato
A entrevista que se segue foi feita em abril de 2009 com o senhor Giuseppe Badolato, pela Rosalina da OSAMI. Badolato é italiano, arquiteto e responsável pelo projeto da Cidade de Deus. Acompanhe mais informações na entrevista abaixo:

Rosalina: Em que ano o senhor chegou ao Rio de Janeiro?
Giuseppe: Em 1948. Eu tinha 13 anos, meu país estava em guerra e encontrei aqui no Brasil muito carinho das pessoas. Comecei aqui a trabalhar como alfaiate para pagar a faculdade.
Rosalina: De lá pra cá, o senhor acha que houve uma mudança pra pior?
Giuseppe: O Rio de Janeiro não estava preparado para receber pessoas de todos os estados em tão pouco tempo. Faltou infraestrutura, como aconteceu na Cidade de Deus.
Rosalina: O senhor foi chefe de uma equipe de arquitetos que planejou a Cidade de Deus, certo?
Giuseppe: É verdade. Um amigo vizinho que era arquiteto do estado me falou sobre um concurso para jovens arquitetos trabalharem em uma nova companhia de habitação – formou-se daí, então, uma equipe de arquitetos. Trabalhei nessa época com Negrão de Lima e Carlos Lacerda.

Rosalina: Conte mais sobre o concurso e seu ingresso para o projeto.
Giuseppe: Fiz o concurso e passei em primeiro lugar. Eu estava acostumado a viver em lugares muito apertados por causa da guerra em meu país (Itália), então foi fácil. Planejei até os embriões, que eram as triagens (ou vagões, como chamam hoje). Era provisório até todas as casas ficarem prontas.
Rosalina: Vamos tirar dúvidas: tem gente que diz que veio morar na Cidade de Deus em 1964, outros dizem que vieram já em 1960 ou só em 1966. afinal, em que ano nasceu a CDD?
Giuseppe: O projeto foi concebido em 1963, a construção começou em 1964 e, por causa de enchente de 1966 – quando ainda não estava tudo pronto – veio gente da Praia do Pinto, Inhaúma, Vila Isabel, Maracanã, Caxias etc..
Rosalina: A Cidade de Deus não foi construída para os desabrigados. Pra quem foi, então?
Giuseppe: Era um projeto de urbanismo do BNH (Banco Nacional de Habitação) para pessoas de baixa renda, que teriam casa própria pagando 10% de seu salário.
Rosalina: O senhor ficou decepcionado com o que aconteceu com o seu projeto?
Giuseppe: Levei um choque quando vi a Cidade de Deus abandonada pelo poder público, que deveria continuar investindo em infraestrutura – a CDD não foi projetada para receber tanta gente.

Rosalina: O que o senhor achou do filme Cidade de Deus?
Giuseppe: Foi uma crueldade, mas, ao mesmo tempo, uma realidade. Prejudicou muita gente, ofendeu os moradores – o filme degradou a imagem dos moradores.
Rosalina: O senhor planejou mais algum projeto? O que mais o senhor construiu?
Giuseppe: Foram vários projetos: Vila Aliança, Vila Esperança, Vila Kennedy, Cidade Alta, Cezarão, entre outros.
Rosalina: Gostaria de parabenizar o senhor pelo projeto, que abrigou muita gente no momento certo.
Giuseppe: Quero deixar aqui um desafio para todas as instituições que trabalham na CDD – e que agora têm um Portal de comunicação: cobrem do poder público tudo a que têm direito, coloquem a boca no trombone.

