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Controvérsias sobre a CDD Digital

Por: Celso Alexandre Souza de Alvear – aluno de doutorado da Engenharia de Produção da UFRJ e pesquisador do Núcleo de Solidariedade Técnica (SOLTEC/UFRJ)


O governo do estado, junto com a prefeitura do Rio de Janeiro, vem implantando um programa de internet sem fio aberta e gratuita em diversas localidades. No papel, esse programa tem tudo para ser um grande sucesso. Porém, no caso da Cidade de Deus (CDD), os moradores vêm reclamando muito aqui no Portal que a internet sem fio tem um alcance muito limitado (só pega perto da praça) e tem uma velocidade muito baixa (chegando a ser pior que internet discada).

Em função das diversas reclamações de moradores, as instituições sociais que fazem parte do Portal começaram a encaminhar essas demandas relacionadas à CDD Digital (como é chamado esse programa de internet sem fio na CDD) para a Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia e para a empresa responsável pelo projeto e implantação da CDD Digital, chamada MIBRA. Diversas respostas dessa empresa foram colocadas no Portal e a última traz questões interessantes para debater.

Como questões gerais, o primeiro ponto que me chamou a atenção foi a frase “‛é tão bom que todo mundo quer’. Essa é a grande verdade”. Nenhum morador estava debatendo no portal se  queria ou não a internet sem fio, o que estavam colocando é que queriam uma internet sem fio de qualidade. Não é porque são moradores de favela que ficarão satisfeitos com qualquer coisa. Isso mostra uma conscientização interessante dos moradores da CDD (ou pelo menos dos que acessam internet e o Portal). Eles não se colocam com uma postura de “coitadinhos”, que receberam um grande favor da prefeitura e tem que agradecer independente de qualquer coisa. Eles se colocam como cidadãos, que tem direitos e devem ser respeitados. Se existe alguma grande verdade, eu acho que é essa!

Outra afirmação é “a cobertura é de excelente qualidade e atende toda área demarcada no projeto oficial”. Não é o que mostram diversos comentários de moradores, tanto no Portal como comentários que ouvi pessoalmente de moradores em reuniões na CDD. E depois vêm a afirmação que “são muitos os equipamentos sem a configuração necessária para prover acesso a rede instalada sendo motivo de reclamações sem fundamento”. Eu gostaria de saber se a MIBRA faria essa afirmação, se quem estivesse pagando para eles colocarem a internet digital fosse diretamente os próprios moradores da CDD (porque indiretamente são eles quem pagam, com impostos que vão para a prefeitura). Aí eles seriam clientes e não usuários e imagino que a MIBRA provavelmente buscaria dar um suporte maior aos moradores. Na verdade essa é uma questão que valeria um outro artigo, esse tratamento desigual entre clientes e usuários em projetos de informática ou engenharia. Quem paga (o cliente)  tem todos os direitos e quem usa (o usuário) leva a culpa por todos os problemas pelo sistema não funcionar bem.

Resumindo, são três grandes questões. A primeira foi separar o “técnico” do “social”, ou seja, para um projeto ser bem sucedido ele tem que resolver todas as questões, as ditas “técnicas”, “sociais”, “econômicas”, “políticas”, “culturais”, “ambientais” etc. A segunda questão foi fazer projeto sem conhecer bem o publico/usuários. Estes devem ser considerados desde o início da construção do projeto. Eles não são o problema, mas sim a solução. Um projeto ou um sistema é feito para resolver questões dessas pessoas e tem que se adaptar aos usuários, e não o contrário, como se os usuários tivessem que se adaptar ao projeto.

Por fim, o que considero o maior motivo de reclamações foi fazer um lançamento oficial (com imprensa, governador e tudo) antes do projeto passar de uma fase de testes. E isso não me parece culpa da empresa, mas sim da prefeitura e do governo do estado. Lembro que as instituições da CDD só souberam do projeto uma semana antes da implantação, e por um acaso de um representante da secretaria ter me encontrado em um evento. O que irrita mais os moradores é o uso político que o governo faz deles, se promovendo na mídia com esse programa que ainda não está funcionando de forma satisfatória. E logo essa grande mídia que só serve para atender os interesses de uma pequena elite brasileira, mas de novo, essa é uma outra longa história...

Seguindo os conselhos de uma amiga, concluirei esse artigo apontando como imagino que deveria ser implantado um projeto de internet sem fio:

  • Contatar instituições locais: Ninguém melhor para ajudar a pensar um projeto efetivo do que as organizações sociais que fazem trabalho há décadas na comunidade. No caso da CDD, existe o Comitê Comunitário, a Agência de Desenvolvimento Local, as associações de moradores, as  organizações comunitárias, os grupos de cultura, os grupos produtivos etc. Só no Portal existem 16 instituições;
  • Fazer pesquisa amostral com moradores. Levantar diversas características dos moradores como perfil de uso de internet, interesses, conhecimento, possíveis riscos de projeto (como vírus, equipamentos insuficientes etc.);
    Desenvolver projeto de engenharia: Fazer o projeto do sistema de internet sem fio levando em consideração a pesquisa com moradores e dialogando constantemente com informantes-chaves (membros de instituições locais ou pessoas indicadas por moradores).
  • Capacitação piloto: A partir do projeto e das questões levantadas pela pesquisa, capacitar um pequeno grupo de moradores para realizar testes no sistema.
  • Piloto: Fase de teste em uma região limitada, ou com uma quantidade menor de usuários, para fazer pequenos ajustes ao projeto. 
  • Ajustes: Pequenas adaptações ou melhorias no projeto de engenharia em função dos problemas encontrados no piloto.
  • Capacitação/formação dos moradores: A partir da capacitação piloto e das adaptações feitas em função da fase Piloto, capacitar os moradores para que estes não tenham dificuldades para acessar a internet sem fio.
  • Divulgação de informações: Junto com a formação, que provavelmente não conseguirá atingir todos os moradores, deve ser feita uma comunicação mais ampla, com distribuição de cartilhas sobre o uso da internet sem fio e divulgação de informações através de rádios comunitárias, carros de som, outdoors e páginas de internet.
  • Lançamento: Lançamento da internet sem fio, contanto com a presença e fala de todos os atores envolvidos, e não apenas de “autoridades” públicas. O lançamento é um marco, uma comemoração, e não um evento publicitário.
  • Acompanhamento, monitoramento e melhorias contínuas: Não adianta implantar e manter sem mudanças. O perfil de uso muda, os usuários mudam, então é necessário acompanhar com pesquisas junto aos moradores. E de preferência desenvolver um programa de formação para que os próprios moradores possam gerir sua internet sem fio. Uma possibilidade interessante seria fomentar a criação de uma cooperativa de TI (tecnologias da informação) de jovens da própria comunidade, que poderiam se sustentar prestando esse serviço de manutenção da internet sem fio e outros serviços de informática para moradores da sua comunidade.
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