Como a comunidade da Zona Oeste vem se adaptando a esse conceito de polícia de proximidade?
Por Ariana Apolinário - Colaboradora do Portal (Matéria escrita para o jornal "A notícia por quem vive")
Se
em 2002 a Cidade de Deus ficou conhecida mundialmente através das
lentes do cineasta Fernando Meirelles, em 2009, a comunidade na Zona
Oeste do Rio de Janeiro voltou a ganhar destaque na mídia. Ocupada
por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), a comunidade foi a
segunda a receber o modelo que visa extinguir o tráfico de drogas.
Mas e para a população, como foi esse período? Será que eles
ainda sofrem com a adaptação?
Para o morador Márcio José Gomes, de 26 anos, nascido e criado na Cidade de Deus, muitas mudanças ocorreram nestes quase dois anos. “Existem diversos benefícios a serem citados quando o assunto são as UPPs, mas existe também o lado negativo. No entanto, o que mais preocupa a população é se esse modelo realmente vai vingar. Será que os políticos vão dar continuidade?”, questiona o jovem.
De acordo com o presidente da Associação dos Moradores da CDD, Alexandre Ferramenta, no começo foi muito difícil a adaptação, mas atualmente vem melhorando. “Antes a gente não podia fazer nada, mas aos poucos estamos conseguindo nos entender. A CDD é um local que ao longo de 30, 40 anos sempre promoveu festas de rua, festas juninas etc., e durante esse período de adaptação era proibido”, conta.
Todos os eventos que ocorrem na comunidade precisam de permissão do Comandante responsável, nesse caso, do Capitão José Luis de Medeiros. Para Alexandre, nem sempre a autorização sai, o que prejudica os eventos da população. “Algumas exigências como esta no começo incomodam, mas depois vira rotina”.
O presidente da Associação também comentou sobre alguns serviços que, juntamente com a UPP, trouxeram benefícios à comunidade. “Hoje temos a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) 24 horas, além de uma iluminação pública melhor, asfalto, cursos voltadas para tecnologia e educação, entre outros”, comenta.
Entre os comentários negativos feitos por ambos os entrevistados, Márcio e Alexandre, o abuso de poder é sempre o primeiro problema a ser citado. “Alguns policiais não fazem bem o serviço, o que acaba prejudicando a população. Parece que eles não queriam estar aqui”, comenta Márcio, um dos mais de 60 mil habitantes que residem na comunidade.
Onde tudo começou
Assim como a Cidade de Deus, o Santa Marta também faz parte do grupo de comunidades ocupadas pela Polícia Pacificadora. Essa, por sinal, foi a primeira a implantar o conceito de Unidade de Policiamento Pacificador, considerado um novo modelo de Segurança Pública e de policiamento, visando promover a aproximação entre a população e a polícia.
Localizada
em Botafogo, na Zona Sul da cidade, o Santa Marta tem um importante
papel na história das comunidades pacificadas, não só por ter sido
o modelo do projeto, mas por ter moradores articulados na defesa de
seus direitos. Um exemplo disso foi a produção da Cartilha Popular,
que tem como objetivo evitar o abuso policial. A Cartilha, que está
disponível na internet, foi construída com apoio integral do rapper
Emerson Cláudio Nascimento dos Santos, também conhecido como MC
Fiell, morador do Santa Marta e diretor do curta “788”, que se
passa na comunidade. “Nossa
intenção não é afrontar a Secretaria de Segurança do Rio de
Janeiro e sim questionar, dialogar, participar da transformação de
um novo comportamento da Polícia Militar contemporânea”.
Mesmo a cartilha tendo a finalidade de informar sobre direitos de cada cidadão e os limites da atuação policial em situações de revista, abordagem, cumprimento de mandados de busca e apreensão, o próprio Mc Fiell, dois meses depois de a cartilha começar a ser distribuída, foi alvo de problemas com policiais. “Eles me deram voz de prisão e foram me batendo desde o local onde eu estava até o camburão. Eram mais de dez policiais”, conta.
O fato ocorreu em maio deste ano, quando o rapper promovia um baile em um bar tradicional da comunidade. Por volta das 21h, policiais avisaram que o evento só poderia durar até as 2h da manhã. Caso passasse do horário permitido, os policiais apreenderiam o responsável e os equipamentos. Minutos antes do horário marcado, eles invadiram o local e, mesmo sem um mandato, desligaram os aparelhos e levaram Fiell para a delegacia alegando desacato. A esposa do rapper também foi levada, sob mesma acusação.
O outro lado
De acordo com dados do Instituto Pereira Passos (IPP) de 2008, existem 968 favelas no Rio de Janeiro. Assim, o Governo do Estado do Rio e a Secretaria de Segurança Pública viram nas UPPs além da possibilidade de recuperar territórios perdidos para o tráfico, levar a inclusão social à população que mora nesses locais.
Na comunidade do Jacarezinho, subúrbio do Rio, a realidade do tráfico não é diferente. Entre os moradores, diversos deles torcem para que as Unidades de Polícia Pacificadora cheguem ao local, como é o caso de Fátima da Silva, que mora a 55 anos na favela. “Espero que esse modelo traga mais tranquilidade e oportunidade para a população. É preciso investir em educação, lazer, esporte etc”, salienta.
Fátima ainda comentou que o método atual inibe a população de ficar nas ruas. “Quando eu era pequena, as coisas eram mais fáceis. Hoje em dia as crianças não podem mais brincar na rua, a violência aumentou muito”. Já para o comerciante Fábio Borges, com a chegada da UPP não só os habitantes poderão andar tranquilos pela comunidade, mas os moradores das redondezas, que t^em medo de frequentar o local, poderão visitar o Jacarezinho sem medo. “Acho que serão diversas as melhorias, tanto para o morador quanto para o comerciante. Só tenho receio da ocupação, de pessoas inocentes que podem ser feridas. É preciso fazer tudo com muita cautela”, comenta.

